• Laércio Torres

Viridiana completa 60 anos. Filme de Luis Buñuel que escandalizou o mundo

Luis Buñuel (1900-1983), considerado um dos grande diretores do cinema, era ateu, de espírito anárquico e senso de humor. Nasceu e criou-se em vila de Calanda, na Espanha, testemunhando, convivendo e sofrendo a influência de um catolicismo primitivo, cheio de mistérios, milagres, pecados, culpas, símbolos, ritos e santos. Iniciou e consolidou a sua carreira na sétima arte como o mestre do surrealismo, tendo como matéria-prima os sonhos, os delírios, a loucura, as quebras de regras da moral e da razão.



Seus primeiros filmes foram colaborações com o pintor surrealista Salvador Dalí: o curta Um Cão Andaluz (1928), da cena inquietante do corte de lâmina no olho, e o longa A Idade do Ouro (1930). Após morar em Nova York, mudou-se para o México em 1946 e dirigiu muitos dos seus filmes, entre eles Os Esquecidos (1950), O Alucinado (1953), Ensaio de um Crime (1955) e Nazarin (1959). Brevemente retornou à Espanha do ditador Franco para realizar Viridiana (1961). Depois voltou para o México e rodou O Anjo Exterminador (1962), um libelo à hipocrisia burguesa. Em um jantar, os convidados não conseguem sair da casa e começam mostrar seus verdadeiros sentimentos, sem a máscara social. Em sua fase francesa, a partir de O Diário de uma Camareira (1964), filmou, entre outros, Simão do Deserto (1965), A Bela da Tarde (1967), O Estranho Caminho de São Tiago (1969), O Discreto Charme da Burguesia (1972) e Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977). Faleceu no México em 1983.



Em 2021, o filme Viridiana completa 60 anos, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, é considerado até hoje um dos 100 melhores filmes da história do cinema. Viridiana (1961), como em Nazarin (1958), Buñuel volta ao catolicismo de sua infância com um olhar sarcástico, irônico e crítico para demonstrar a inutilidade da religião e, principalmente, da redenção humana. Assim, a cruz e a coroa de espinhos, que são enquadradas em primeiro plano algumas vezes no filme, terminam por definir a trajetória espiritual de Viridiana. No início, veneradas como relíquias sacras, no final do filme, jogadas ao fogo.


O filme marcou a volta de Buñuel ao seu país durante o Governo de Franco, após anos de exílio no México, convidado pelo ministro da Cultura. Apesar de ter ganho a Palma de Ouro no Festival de Cannes, Viridiana foi censurado na Espanha por ser considerado escandaloso e recebeu a condenação do I’Osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, como “um insulto não apenas ao Catolicismo, mas um insulto ao Cristianismo em geral”.


Buñuel sempre prezou a liberdade de criação, que o levou abraçar o surrealismo desde seu primeiro filme Um Cão Andaluz (1928), filmado juntamente com o pintor Salvador Dali. A proposta era criar um filme baseado no irracional, exibindo imagens que fossem apenas impressionantes, sem buscar o motivo delas. Esta influência surrealista Buñuel expressou com menor ou maior grau na maioria de seus filmes, criando imagens muitas vezes delirantes, sem sentido na narrativa, que os críticos simbolistas buscavam a todo custo um significado, como a cena do urso e dos carneiros em O Anjo Exterminador (1962) e das duas atrizes que interpretam o mesmo papel em Este Obscuro Objeto do Desejo (1977).



Em Viridiana, Buñuel narra a história de uma noviça (Silvia Pinal) que está prestes a tornar-se freira, quando o seu tio Dom Jaime (Fernando Rey), doente, pede que vá visitá-la. Resiste à idéia, mas é convencida pela madre superiora a ir, principalmente, ao lembrar que ele lhe deixou um dote que a sustentava. Na mansão de Dom Jaime, a vida de Viridiana tomaria um outro rumo. O tio apaixona-se por ela e a deseja como esposa. Para convencê-la ficar, manda que sua serviçal a drogue, fazendo-a acreditar, após acordar, que a desvirginou, não sendo possível mais voltar ao convento. Mesmo assim ela não aceita ficar e planeja ir embora, porém o tio suicida-se em um ato de redenção.


A noviça, pensando não ser mais pura para voltar ao convento, busca a redenção através da caridade, trazendo mendigos para morar e trabalhar na mansão. Os mendigos, alegres e solícitos no primeiro momento, mostram-se preguiçosos, dissimulados e depravados, tentando alguns até violentá-la. A redenção proposta por Viridiana é desprezada pelos mendigos, o que a leva a desistir de sua redenção também. No final do filme, a câmera em primeiro plano mostra uma Viridiana vaidosa em frente ao espelho, que solta os cabelos e vai ao encontro do primo Jorge (Francisco Rabal) que se encontra no outro quarto com a serviçal. A última cena, em travelling para trás, enquadra os três jogando cartas numa mesa, sugerindo de forma implícita um ménage à trois.


No cinema, principalmente o americano, predomina o modelo narrativo da redenção, influenciado pelo messianismo cristão, do personagem que sofre para redimir e ser redimido. Rambo, Zorro, Tarzan, Super-Homem, os cowboys, os detetives, os policiais são variações do messias redentor no Cinema. Ao final, todos seguem uma moral pré-determinada, que define o rumo dos bons e maus, daqueles que foram redimidos e daqueles que desprezaram a redenção.



O filme é uma mensagem que apresenta uma série de situações, de acontecimentos e de ações ajustados na unidade de uma história, e, logicamente, essas interligações de fatos jamais serão desprovidas de conceituações éticas. Qualquer filme está impregnado por um estatuto que o define moralmente. O cineasta está sujeito a diversos tabus que restringem sua expressão, podendo chegar a proibi-lo a tratar de algum tema. A apreciação ética no final é que vai designar se a ação desenvolvida foi digna, merecendo recompensa, ou indigna, merecendo castigo.


A narratividade deve ser separada, segundo Claude Bremond, em dois planos: a história narrada (plano dos acontecimentos e de seu entrosamento) e a narração (plano do discurso narrativo). O primeiro tem a sua moralidade própria expressada no encadeamento dos acontecimentos da narrativa e no seu resultado final; e o segundo, que leva em consideração esta história, moraliza-a ou não em um segundo grau. Mas é o resultado final do filme que dá sentido à história, fixa igualmente o valor ético do tema.


A moral do filme oferece a recompensa e o castigo no reino do destino. Em todo o filme aparecem sinais avaliadores da conduta dos personagens, o cineasta se apresenta através da narração dada como um tribunal de consciência, julgando em grau de apelação os acasos do destino. Esses sinais avaliadores morais aparecem através de índices codificados que designam se um personagem é bom ou mal, simpático ou antipático.



Em Viridiana, Buñuel despreza esta fórmula. Na verdade, segue o caminho inverso. A personagem principal inicia o filme redimida e termina no caminho inevitável da perdição. Os mendigos, alvo da caridade da jovem noviça, rejeitam a redenção. Na seqüência do jantar, onde se comportam de forma depravada ao som do Messias de Haendel, o profano domina o sagrado quando em plano geral se enquadra os mendigos imitando a cena da Santa Ceia de Leonardo Da Vinci. Em outra cena, é denunciada a inutilidade da fé e da religião quando, em montagem paralela, mostra os operários trabalhando na mansão enquanto os mendigos oram no campo com Viridiana.


Para Buñuel, a redenção humana é fantasia. Só nos resta o mistério, como afirmou em sua autobiografia Meu Último Suspiro: “Já que recuso fazer intervir uma divindade organizadora, cuja ação me parece ainda mais misteriosa do que o mistério, resta-me viver numa certa escuridão. Aceito-a. Nenhuma explicação, nem mesmo a mais simples, vale por todas. Entre os dois mistérios, escolhi o meu, porque pelo menos preserva a minha liberdade moral”. Certa vez Cristo aconselhou: "entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela (...)”. Buñuel acreditava que havia apenas o largo caminho. Todos estavam condenados à perdição.



Ficha técnica:

Viridiana (Viridiana) 1961. Espanha/México. 90 min. Direção: Luis Buñuel. Roteiro: Julio Alejandro, Luis Buñuel. Elenco: Silvia Pinal, Francisco Rabal, Fernando Rey, José Calvo, Margarita Lozano, José Manuel Martín, Victoria Zinny, Luis Heredia.



Laércio Torres é jornalista, professor e autor do livro O Mito Cristão no Cinema (Edufba).

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