• Gonçalo Júnior

Stan Lee: vilão ou herói?

Atualizado: Ago 23

Minha paciência com essa discussão sobre o papel de Stan Lee na criação do universo Marvel acabou faz tempo. Por que ninguém faz o mesmo em relação a Walt Disney ou George Lucas e seus respectivos personagens e universos? As viúvas de Jack Kirby e Steve Ditko são umas chatas que ninguém aguenta mais ver alimentar esse falso debate de vítimas de um parceiro ardiloso e marqueteiro.



Lee - um dos caras mais invejados do mundo - criou, concebeu tudo. Isso é mais claro do que afirmar que a Terra é redonda e o Sol gera calor. Ele escreveu a primeira história de cada personagem de modo a lhe dar todas as características possíveis e conceito, além da enorme sacada de humanizar super-seres que até então eram providos apenas de senso de justiça, e aproximá-los dos leitores, com seus medos e inseguranças, além de incontáveis crises existenciais ou dificuldade de conseguir uma namorada. Foi ele quem compôs a personalidade de cada um e alimentou tudo por anos com seus roteiros.


O seu papel não tem nada a ver com o desenvolvimento de histórias pelo método Marvel, em que os artistas realmente tinham um papel participativo maior, bem mais ativo, e até na inclusão de personagens secundários. Sim, eles trabalhavam com um briefing de Lee e desenvolvia as tramas, naquela insanidade que era comandar e bolar toda a produção da editora mês a mês. Ok. Mas uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Kriby e Ditko eram dois despeitados e rancorosos, pois Lee nunca lhes negou coautoria, e eu a restrinjo à concepção visual, a partir de orientação do autor. Mas eles nunca se conformaram com isso e queriam até mesmo inverter os papéis quanto à importância de cada um. Coisa, aliás, que continua a ser alimentado pelos detratores de Lee. Agora, querer diminuir ou tirar o valor do criador de tudo para reclamar royalties da Marvel é uma covardia sem tamanho.


Reli a fase dele com John Romita no Homem-Aranha, que é absolutamente genial. Só Lee faria com que um resfriado derrotasse seu super-herói. Ou uma crise de insegurança fizesse o personagem jogar sua fantasia numa lata de lixo. A minha sugestão é que essas pessoas virem o lado do disco ou troquem de estação.


Gonçalo Junior é jornalista e proprietário da Editora Noir. Trabalhou nos diários Jornal da Bahia, Tribuna da Bahia, Bahia Hoje, Gazeta Mercantil e Diário de S. Paulo. Foi editor das revistas Personnalité (Trip) e Brasileiros. Colaborou em Playboy, Trip, Cidade Jardim, Entrelivros, Bravo!, Imprensa, Audi, MAG e Nossa História e no jornal Folha de S. Paulo. É autor de 32 livros. Entre eles, País da TV (Conrad), O Homem-Abril (Opera Graphica), A Guerra dos Gibis (Companhia das Letras), Enciclopédia dos Monstros (Ediouro), Alceu Penna e as Garotas do Brasil (Manole), …E Benício Criou a Mulher (Opera Graphica), Maria Erótica e O Clamor do Sexo (Peixe Grande), A Morte do Grilo (Peixe Grande), Quem Samba tem Alegria (Civilização Brasileira), É uma Pena não Viver (Planeta), Eu Não Sou Lixo (Noir), A Subversão Pelo Prazer (Noir), O Deus da Sacanagem: a Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro (Noir), Visionário dos Quadrinhos: José Luis Salinas (Noir), Famigerado! (Noir) e Um coração que chora - Jacob do Bandolim (Noir) . Publicou os álbuns de Histórias em Quadrinhos Claustrofobia (Devir), ilustrado por Júlio Shimamoto, e O Messias - um filme mudo em Quadrinhos (Opera Graphica), com arte de Flávio Luiz.



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