• Laércio Torres

Os 7 de Chicago exalta o idealismo, a democracia e a luta por justiça

Atualizado: Ago 23

Nos dias atuais, na sociedade hedonista e individualista que vivemos, a luta por ideais, democracia e justiça cheira a mofo, é coisa do passado. Será? O filme Os 7 de Chicago, indicado ao Oscar por Melhor Filme, mostra o julgamento de diferentes grupos de manifestantes contrários à Guerra do Vietnã que participaram de uma manifestação, o qual terminou em violência, durante a Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago.



O governo americano à época decide acusar alguns participantes deste protesto de conspiração, em um julgamento que entrou para a história do país. Cada um desses manifestantes, à sua maneira, defende seus ideais e luta contra um sistema de justiça que, por trás de uma fachada democrática, está a serviço dos interesses econômicos e políticos do status quo.


O roteirista e diretor Aaron Sorkin (duas indicações ao Oscar e uma vitória por Melhor Roteiro Adaptado em ‘A Rede Social’) se utiliza deste fato histórico para, em plena era Trump (filme foi lançado em outubro de 2020), discutir a partir do olhar do nosso tempo questões como patriotismo, racismo, violência policial, polarização política, idealismo e justiça.


Numa narrativa tradicional, o longa produzido pela Netflix só consegue envolver o público em seu terço final. Inicia apresentando cada personagem e o papel (acusados e acusadores) que terá na trama que se desenrolará no julgamento presidido pelo juiz Julius Hoffman (Frank Lagella), descaradamente tendencioso e parcial. Já ouviram falar disso?



No tribunal, em flashback, são narradas as participações de cada grupo dos manifestantes: os universitários sérios Tom Hayden (Eddie Redmayne) e Rennie Davis (Alex Sharp); os hippies irreverentes Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen, indicado ao Oscar de coadjuvante) e Jerry Rubin (Jeremy Strong); o pacifista de meia-idade David Dellinger (John Carroll Lynch) e Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II), um dos líderes dos Panteras Negras. Em sua defesa, o advogado William Kunstler, interpretado de forma vigorosa por Mark Rylance, e na acusação o ambíguo e inseguro personagem do procurador Richard Schultz (Joseph Gordon-Levitt).


Prevalece no filme a defesa de princípios democráticos e humanos contra o Estado opressor, como a liberdade de expressão, o direito de resistir ao arbítrio, a defesa da vida e da dignidade humana e a luta por justiça. Temas atuais, principalmente, para a sociedade brasileira, onde a democracia ainda não se estabeleceu de forma plena. A emocionante cena final em que Tom Hayden (Eddie Redmayne) faz uma leitura extensa dos nomes dos soldados mortos na Guerra do Vietnã, sob os protestos do juiz, lembra que por trás de todo ideal e princípios há vidas, que muitas vezes são desprezadas pelo sistema político e econômico.



FICHA TÉCNICA


Duração: 2h 09min

Gênero: drama, histórico

Direção: Aaron Sorkin

Elenco: Yahya Abdul-Mateen II, Sacha Baron Cohen, Joseph Gordon-Levitt

Título original: The Trial of the Chicago 7


Onde assistir: Netflix



* Laércio Torres é jornalista, professor e autor do livro O Mito Cristão no Cinema (Edufba).








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