• Laércio Torres

Nomadland valoriza a dignidade diante das perdas e dores

Atualizado: Ago 23

O filme Nomadland pode ser definido como um ensaio sobre a dignidade, de como manter a integridade diante das adversidades sociais, econômicas e pessoais. A protagonista sexagenária Fern, interpretada por Frances McDormand (ganhadora do Oscar de melhor atriz por Três Anúncios para um Crime em 2018 e por Fargo em 1997), enfrenta a viuvez e o despejo de sua casa na estrada, com uma velha van que reformou e um sorriso no rosto. As relações com as pessoas que encontra pelo caminho, também nômades como ela, são regidas pela solidariedade e partilha. O que resta e se impõe para aqueles que perderam quase tudo.



Aliás perdas e dores, como afirma o personagem Bob ao final do filme, são as marcas dessas pessoas que estão à margem do sonho americano de riqueza e sucesso. Mas dentro da alternativa de sobrevivência encontrada é necessário não perder a dignidade, a força e a vontade de viver. Com a exceção do personagem de David Strathairn, todos os outros são reais, interpretando a si mesmos, as suas histórias marcadas por dificuldades financeiras, traumas emocionais, inadequação, busca de independência ou de aventura.


Baseado no livro-reportagem de Jessica Bruder, o filme dirigido por Chloé Zhao, favorita ao Oscar de Melhor Direção, retrata um sentimento coletivo de perda, principalmente, das pessoas atingidas pela crise econômica de 2008. O marido de Fern trabalhava numa mineradora de gipsita e fábrica de placas de gesso instalada em Empire (Nevada), que faliu, demitiu seus funcionários e retomou suas casas. Com o fim de toda atividade econômica, a cidade tornou-se desabitada.


Fern permaneceu em Empire até o fim. Rejeitou morar com a irmã e também com o seu quase romance Dave (David Strathairn), como uma forma de manter viva a memória do esposo que tanto amava. Ou seja, ter uma vida “normal”, Por fim, Nomadland também é um filme sobre o amor, o amor que permanece por aquele que se foi, como no caso de Bob, que encontrou motivação em ajudar outras pessoas após o suicídio do seu filho. Com uma narrativa lenta, enquadramentos em grandes planos dos espaços e close ups, a estrada e a natureza inóspita se integram à vida interior dos personagens, suas angústias e dilemas. Segue a tradição do gênero road movie americano.


Indicado a seis Oscars (melhor filme, atriz, direção, roteiro adaptado, montagem e fotografia), o longa-metragem produzido e estrelado por Frances McDormand já ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza e foi aclamado no Festival de San Sebastián. norte da Espanha. Além disso, a diretora Chloé Zhao, chinesa radicada nos EUA, marca a história da premiação neste ano, juntamente com a inglesa Emerald Fennell, de Bela Vingança, como a primeira vez que duas mulheres concorrem nessa categoria. Um grande feito para um filme sobre pessoas menosprezadas pela sociedade, que vivem suas perdas e dores com dignidade.



Ficha técnica


Nome: Nomadland

Nome Original: Nomadland

Cor filmagem: Colorida

Origem: EUA

Ano de produção: 2020

Gênero: Drama

Duração: 108 min

Classificação: Livre

Direção: Chloé Zhao

Elenco: Frances McDormand, David Strathairn, Patricia Grier, Gay DeForest...



* Laércio Torres é jornalista, professor e autor do livro O Mito Cristão no Cinema (Edufba).





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