• Laércio Torres

Meu Pai retrata de forma angustiante as perdas da velhice

Atualizado: Ago 23

A maneira como uma história será contada, a partir de que ponto de vista, de qual personagem, define a narrativa de um filme e pode determinar a atenção e envolvimento do público, o seu sucesso ou fracasso. Em Meu Pai (The Father), o diretor Florian Zeller alterna de forma angustiante o ponto de vista, realidade ou fantasia, para envolver o público e fazê-lo compreender o estado de demência (mal de Alzheimer) do personagem de Anthony Hopkins, as mazelas, o estado de espírito e a vivência da terceira idade. Deste modo, o título no Brasil termina não sendo fiel à narrativa construída, pois o ponto de vista que prevalece não é o da filha, mas do pai.



A película inicia mostrando Anthony (vivido por Hopkins), 81 anos, em seu apartamento sozinho em Londres, recusando todos os cuidadores que sua filha Anne (interpretada por Olivia Colman) tenta impor a ele. Ela está se mudando para Paris e precisa garantir os cuidados dele enquanto estiver fora, buscando encontrar alguém para cuidar do pai. A partir disso, o público acompanha a instabilidade mental de Anthony em que um desconhecido (marido da filha?) diz que o apartamento em que mora é dele, não reconhece o marido da filha e desconfia das intenções dela. Ao final não se pode determinar o que era real ou sintomas da demência.


As grandes interpretações de Hopkins e de Colman retratam de forma emocionante a dor da perda que a velhice nos traz, no caso, agravada pela senilidade. A filha sente o afastamento mental e emocional do pai que ama, já o pai luta para manter a lucidez, a inteligência, a integridade, a autonomia, sua dignidade. A cena em que é agredido pelo marido da filha (fantasia ou realidade?) sem reagir é tocante por demonstrar toda a fragilidade do personagem, sua dependência, insegurança e incerteza em relação ao presente e ao futuro.



Apesar de ser uma adaptação da peça teatral escrita e dirigida por Florian Zeller, que estreou na direção de filmes, a narrativa ambígua, os enquadramentos, as belas interpretações impedem que o público sinta monotonia ou enfado. Não há como, pois contemplamos e nos envolvemos com o sensível retrato do envelhecer, que debilita a mente e o corpo, apesar da experiência, maturidade e sabedoria que traz. Um drama que pode alcançar a todos, nossos entes queridos e a nós mesmos.


Meu Pai venceu o prêmio britânico BAFTA 2021 por Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado. Foi indicado em seis categorias no Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator (para Anthony Hopkins), Melhor Atriz Coadjuvante (para Olivia Colman), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Design de Produção. Hopkins já ganhou um Oscar pelo filme O Silêncio dos Inocentes e Colman por A Favorita. Completa o elenco Mark Gatiss (Sherlock), Imogen Poots (Need for Speed: O Filme), Rufus Sewell (The Marvelous Mrs. Maisel) e Olivia Williams (Anna Karenina).


O filme está disponível apenas para compra em plataformas digitais como YouTube, Now, Apple TV e Google Play. A versão para aluguel será disponibilizada em 28 de abril.



FICHA TÉCNICA


Título: Meu Pai (The Father)

Ano de produção: 2020

Direção: Florian Zeller

Duração: 97 minutos

Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos

Gênero: Drama

País: Reino Unido e França


ELENCO


Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell.


ROTEIRO


Christopher Hampton, Florian Zeller


PRODUÇÃO EXECUTIVA


Daniel Battsek, Lauren Dark, Paul Grindey, Zygi Kamasa, Ollie Madden


PRODUÇÃO


David Parfitt, Jean-Louis Livi, Philippe Carcassonne


DIREÇÃO


Florian Zeller



* Laércio Torres é jornalista, professor e autor do livro O Mito Cristão no Cinema (Edufba).





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