• Laércio Torres

Judas e o Messias Negro: o evangelho da luta racial

Atualizado: Ago 23

Nas indicações para Melhor Filme neste ano, três produções se destacaram pela temática social, principalmente a luta contra o racismo, influenciados talvez pelo movimento Black Lives Matter, revigorado pelos protestos após a morte de George Floyd por um policial de Minneapolis, nos Estados Unidos. Entre os indicados, Judas e o Messias Negro, dirigido por Shaka King, se utiliza da simbólica história bíblica para recontar a luta pelos direitos civis, no final da década de 1960, do grupo Panteras Negras, liderado pelo jovem líder Fred Hampton (Daniel Kaluuya, ganhador do Oscar por Melhor Ator Coadjuvante).



Considerado radical, violento e anticapitalista, o Panteras Negras era investigado pelo FBI de J. Edgar Hoover (Martin Sheen), o poderoso e odioso diretor da agência. Surge então o Judas deste evangelho de conflitos raciais, o “ladrão de galinhas” Bill O’Neal (Lakeith Stanfield), cooptado pelo agente Mitchell (Jesse Plemons) para se infiltrar no grupo e espionar, especialmente, o líder Hampton.


Infelizmente, o tema central da narrativa que seria a traição da luta por direitos dos negros pelo negro O’Neal, seus conflitos e consciência política, termina se diluindo por não conseguir fugir da interpretação carismática de Daniel Kaluuya e de seu personagem. Tanto que no momento quando sai de cena momentaneamente por causa da prisão, o filme perde em ritmo e emoção.


Aliás, as cenas mais vibrantes da película, assim como nos evangelhos, estão nos discursos de Jesus, no caso, do líder negro Fred Hampton. As câmeras acompanham as falas revolucionárias do orador (em close-up) e a reação do público, a sua defesa do uso da violência contra as injustiças que sofriam. Um messias que “não veio trazer paz” (Mateus 10.34) na luta racial, como Martin Luther King (que terminou assassinado), mas “espada”.


Enquanto isso, Bill O’Neal, interpretado por Stanfield, não consegue imprimir força e sedução ao protagonista. Seus conflitos e dilemas não comovem e não convencem. Em mais de duas horas de filme, não transparece de forma vigorosa a relação que mantinha com a causa do Panteras Negras e o seu líder. Ao fim de tudo, o personagem seria apenas realmente um pequeno criminoso? Que se vendia ao FBI para não ser preso e ganhar algum dinheiro? A sequência final de traição, que poderia ter sido trabalhada como um grande clímax, torna-se banal. Não há beijo nem “trinta moedas de prata”.


O certo é que Judas e o Messias Negro, embalado pela música “Fight for You” (Oscar de Melhor Canção Original), é um bom filme. Atual por relembrar as lutas contra as desigualdades, injustiças e racismo, ainda presentes em nossa sociedade, mas também as suas derrotas, conflitos e dilemas.



FICHA TÉCNICA


Título original: Judas and the Black Messiah

ANO: 2021 PAÍS: EUA CLASSIFICAÇÃO: 18 anos DURAÇÃO: 127 min

DIREÇÃO: Shaka King ELENCO: Jesse Plemons, Daniel Kaluuya, Lakeith Stanfield, Dominique Fishback.



* Laércio Torres é jornalista, professor e autor do livro O Mito Cristão no Cinema (Edufba).







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