• Laércio Torres

Cruella: a origem do mal

Atualizado: Ago 15

Como nos tornamos o que somos? Por que nos tornamos pessoas más? Nossa personalidade é fruto da hereditariedade genética ou dos traumas, experiências e ambiente em que vivemos? De forma despretensiosa, Cruella, o novo live-action da Disney (nos cinemas e no Disney+, através do Premier Access), tenta responder esta questão. Como os filmes de origem dos super-heróis e vilões, vide Malévola (2014) e Coringa (2019), a produção acompanha a personagem Estella/Cruella desde a infância, interpretada de forma carismática por Tipper Seifert-Cleveland, quando já apresenta uma tendência para a transgressão, sendo agressiva e antissocial na escola, mas ao mesmo tempo criativa e genial.



A culpa pela traumática morte de sua mãe a faz enveredar de vez no caminho da marginalidade quando encontra nas ruas os garotos Gaspar (Joel Fry) e Horário (Paul Walter Hauser), seus parceiros e cúmplices de golpes e roubos até a vida adulta. Surge então Emma Stone, que vive de forma magistral a Estella mulher, a qual apesar de todas as adversidades, sonha em tornar-se uma estilista de moda famosa. Sonho que começa a se realizar ao ser contratada pela Baronesa von Hellman, criação meio caricatural, mas marcante de Emma Thompson, que fez lembrar o clima de O Diabo Veste Prada (2006). Ao descobrir a participação da Baronesa em seu grande infortúnio no passado, toma-se pelo desejo de vingança, transforma-se em sua grande rival não só nas criações de figurinos extravagantes, mas também no cultivo e uso da maldade. Estella tornar-se Cruella, numa transição pouco sutil. Talvez o maior defeito do filme.


A crescente evolução do mal na personalidade de Cruella, na Londres do movimento rock-punk dos anos 70, é acompanhada por uma magistral trilha sonora (Supertramp, Bee Gees, Queen, Nina Simone e The Clash), figurinos estupendos criados por Jenny Beavan (Mad Max: Estrada da Fúria) e uma frenética câmera em grandes planos e close-ups, dirigida de forma acertada por Craig Gillespie (Eu, Tonya). O conjunto da obra, os recursos utilizados, envolve o público, levando-o a mergulhar na trama e identificar-se com uma das grandes vilãs, no caso Cruella.


Diferente de Malévola, primeira tentativa da Disney de fazer um filme de origem de vilã, em que buscou-se justificar suas maldades, em Cruella há possíveis explicações (experiências traumáticas, ambiente, hereditariedade), mas não justificativas. Ainda que o maior ato de maldade da personagem, o uso da pele dos cães para fazer um casaco, presente na atuação icônica de Glenn Close na produção 101 Dálmatas em 1996, seja aqui apenas insinuado. Ao final, com dinheiro e poder, a Estella é definitivamente deixada para trás e Cruella assume de vez a alma do personagem, antecipando uma possível sequência. Os dálmatas que se cuidem!



Cruella (Idem | EUA, 2021)

Direção: Craig Gillespie

Roteiro: Dana Fox, Tony McNamara (Baseado no universo da obra literária de Dodie Smith)

Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Mark Strong, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Emily Beecham, Kirby Howell-Baptiste, Tipper Seifert-Cleveland, John McCrea, Kayvan Novak, Jamie Demetriou, Abraham Popoola, Leo Bill, Javone Prince, Steve Edge, Paul Chowdhry, Ziggy Gardner, Joseph MacDonald, Niamh Lynch, Andrew Leung

Duração: 134 minutos



* Laércio Torres é jornalista, professor e autor do livro O Mito Cristão no Cinema (Edufba).


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