• Laércio Torres

Conheça as sete versões clássicas de Cristo no cinema

Atualizado: Ago 23

Desde o início, o cinema faz uma leitura mitológica de Jesus, utilizando-o como símbolo de uma idéia, de um pensamento vigente ou de uma postura de vida. A pessoa de Cristo, dentro do contexto da indústria cinematográfica, recebeu várias interpretações dependendo do momento histórico, político e social da produção do filme, servindo como mensageiro de uma ideia e também como meio para se compreender vários aspectos do mundo em que vivemos.



Na verdade, a visão mitológica de Cristo, como meio de expressar uma ideia teológica, teve início com os seus discípulos. Cada evangelista – Mateus, Marcos, Lucas e João – lançou, em certa medida, um olhar diferente sobre Jesus. Certa vez Jesus indagou aos seus discípulos: “O que dizem os homens quem eu sou?”. Várias foram as respostas. Quando se pretende escrever ou filmar uma obra sobre Cristo esta ainda é uma pergunta pertinente. Uma pergunta que os cineastas que dirigiram filmes sobre Cristo fizeram a si mesmos e que a resposta serviu como guia para execução e concepção do processo de filmagem.


Cristo no cinema


Foi a Sociedade Lumière em 1897, na França, que iniciou a tradição de filmar a vida de Cristo. O filme repetia em 13 quadros os passos do martírio de Jesus a caminho do Gólgota. Em 1905, foi concluída uma das mais célebres paixões, dirigida por Ferdinand Zecca. Em 1927, Cecil B. De Mille deu início ao épico bíblico hollywoodiano, com O Reis dos Reis. Nos anos 50, Jesus surgiu em várias produções americanas como coadjuvante: Ben-Hur, O Manto Sagrado, Barrabás e Cálice Sagrado.


Mas as representações de Cristo no cinema mais conhecidas são: O Rei dos Reis (1961), de Nicholas Ray; O Evangelho Segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini; A Maior Historia de Todos os Tempos (1965), de George Stevens; Jesus Cristo Superstar (1973), de Norman Jewison; O Messias (1976), de Roberto Rossellini; Jesus de Nazaré (1977), de Franco Zeffirelli; A Vida de Brian (1979), de Terry Jones; A Última Tentação de Cristo (1988), de Martin Scorcese; Jesus de Montreal (1989), de Denys Arcand; e A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson.


Nos últimos anos, várias produções (filmes e séries) trouxeram releituras, ousadas ou tradicionais, da pessoa de Cristo. Dentre elas podemos destacar: A Bíblia (2013); O Filho de Deus (2014), de Christopher Spencer; O Novíssimo Testamento (2015), de Jaco Van Dormael; Últimos Dias no Deserto (2015), de Rodrigo Garcia; O Jovem Messias (2016), de Cyrus Nowrasteh; Ben-Hur (2016), de Timur Bekmambetov; Ressurreição (2016), de Kevin Reynolds; Maria Madalena (2018), de Garth Davis; Messiah (2020), de Michael Petroni.


Nem sempre o que é mostrado em um filme sobre Jesus possui uma única visão, pessoal, do cineasta. Existem várias outras influências, como da fonte inspiradora e da produção. Os filmes hollywoodianos dificilmente sairão de uma visão tradicional de Jesus, pois buscam o lucro fácil e agradar o máximo de pessoas possíveis e não se arriscarão em produções que entrem em conflito com determinadas crenças da sociedade. Em diferentes representações de Cristo nas telas, observamos a visão de mundo que os cineastas pretendem expressar com sua leitura específica. Veja abaixo sete filmes sobre a vida de Jesus que consideramos clássicos na história do cinema:


1. O Rei dos Reis (1961), de Nicholas Ray



Em O Rei dos Reis, de Nicholas Ray, Cristo é o Cristo dos altares, inatingível, senhor de si, confiante e plenamente consciente de sua missão. Um típico filme épico hollywoodiano, tradicional, da década de 60. Representa uma faceta da sociedade americana, não reacionária, mas tradicional. Sociedade que tentava manter as suas raízes morais, religiosas e culturais, em meio a várias transformações que ocorriam naquele momento.


Na década de 60, além do conflito político-econômico entre EUA e URSS, havia o conflito entre os moralistas-conservadores e a nova ordem moral dos jovens e liberais. Os Estados Unidos se consolidaram como o protetor do “mundo livre”. O bem-estar proporcionado pela aceleração econômica e o desenvolvimento técnico-científico renovou o sentimento do american way life no cidadão médio americano. A sociedade americana, em sua maioria, defendia o seu estilo de vida contra tudo aquilo que considerasse uma ameaça, como o comunismo e a liberação sexual e moral.


2. O Evangelho Segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini



O Cristo do cineasta italiano Pasolini representa um aspecto histórico da década de 60, quando em várias partes do mundo pessoas havia um anseio por liberdade e igualdade. Pasolini, motivado por sua ideologia marxista, tentou tirar Cristo do pedestal das igrejas e trazê-lo de volta para o povo que há tanto tempo estava distante do seu maior mito. Distância imposta pelas autoridades e instituições eclesiásticas.


O povo deveria conhecer um Jesus como realmente ele deveria ter sido, cara de proletário, revolucionário, incisivo, apaixonado pela vida e pelos homens. Pasolini utiliza o Cristo do Evangelho de Mateus, o messias esperado pelos judeus, seguindo quase literalmente sua seqüência narrativa, como símbolo de subversão. Em Mateus, está presente um Jesus mais contestador que denuncia a hipocrisia e as injustiças dos poderosos de sua época. Um Jesus sofredor, mas seguro de si, firme em seus propósitos.


3. Jesus Cristo Superstar (1973), de Norman Jewison



O filme reflete todas as transformações que se consolidaram no final da década de 60 e no início da década de 70. Os jovens, por mais que desejassem se desvencilhar dos ensinos dos seus pais, dos seus costumes e tradição, não conseguiam, pois tudo aquilo estava por demais enraizado na sociedade em que viviam. O que fazer? Se não podiam destruir a tradição, então tinham que transformá-la. E o Jesus de seus pais se tornou o Jesus da contracultura, da liberdade, da rebeldia, da paz e do amor. Afinal, no estilo de vida de Cristo, os jovens encontravam inspiração para isso. Hollywood, percebendo esta transformação, fez do Messias um hippie, um representante da contracultura, em quem os jovens daquela época pudessem se identificar.


4. A Vida de Brian (1979), de Terry Jones



O filme utiliza o mais querido arsenal mitológico e simbólico do Ocidente, a vida de Jesus e seus ensinamentos, para criticar a sociedade. O Monty Python não brinca com a figura de Jesus, trata-a até com respeito, mas utiliza-se de Brian, um herói contemporâneo seu, para satirizar a religião, a política, o status quo. Em elipse, Brian é Cristo. Nada restou das utopias sonhadas. O que fazer após a destruição dos valores, dos costumes, da religião, da moral que direcionava a sociedade ocidental? O cinismo e a irreverência do filme são uma constatação de que o sonho de uma sociedade alternativa, onde haveria igualdade entre os homens, paz, liberdade de pensar e agir, era apenas ilusão. Resta aos jovens uma visão sarcástica, irônica e crítica do mundo.


5. A Última Tentação de Cristo (1988), de Martin Scorcese



O Cristo de A Última Tentação reflete o homem moderno que busca um sentido existencial. Não um sentido baseado em coisas efêmeras e materiais, mais em algo sólido, duradouro, eterno, pleno, prazeroso. Mas, como não podia deixar de ser, esta busca é cheia de dúvidas, incertezas e sofrimento. O filme representa o retorno à espiritualidade perdida, como forma de encontrar equilíbrio e segurança em um mundo que se transforma a cada dia de modo assustador.


Em A Última Tentação de Cristo, Scorcese procurou mostrar o seu Cristo de modo humano e realista, sujeito a dúvidas, questionamentos e fraquezas. Para isso, baseou-se no romance A Última Tentação, de Nikos Kazantzakis, grego da Igreja Ortodoxa. O filme escandalizou a visão dogmática dos crentes do mundo inteiro, causando uma onda de protestos por onde foi exibido. O objetivo principal é a discussão sobre os sentimentos e os conflitos de Jesus. É uma meditação sobre a luta espiritual do homem.


6. Jesus de Montreal (1989), de Denys Arcand



Em Jesus de Montreal, filme que ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, Arcand utiliza-se da figura de Cristo para mostrar o quanto a sociedade moderna, urbana, está distante dos seus ensinamentos, denunciando a superficialidade, individualismo, egoísmo e falta de solidariedade. O filme faz uma alegoria sobre a religião e o poder e uma reflexão sobre o cotidiano das pessoas, utilizando o mito de Cristo.


Verifica-se, além disso, um questionamento explícito não somente da Igreja, mas do consumismo, do teatro, do cinema, da mídia, da publicidade, da medicina, da Justiça, da psicologia, da coisificação do homem, enfim, das instituições que regem a nossa sociedade. Há uma discussão dos mecanismos de funcionamento da religião, tão distante do que Cristo ensinou.


7. A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson



Em A Paixão de Cristo, há uma retorno radical à visão tradicional de Jesus. Gibson utiliza o filme para redimir-se e tentar sensibilizar o público da necessidade de redenção também. Historicamente, o filme expressa o fundamentalismo religioso e político atual. Desde o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, que o presidente do país, George W. Bush, declarou guerra total aos terroristas do mundo todo e, com este pretexto, invadiu o Afeganistão, o Iraque e apóia incondicionalmente a política belicista de Israel contra a resistência palestina nos territórios ocupados. Assim como os fundamentalistas islâmicos, capitaneados por Osama Bin Laden, Bush também enxerga o mundo de forma maniqueísta: os que são contra e a favor, os maus e os bons, os fiéis e os infiéis.


Gibson, como homem religioso do seu tempo e formado na indústria hollywoodiana, sabia que para sensibilizar um público individualista e hedonista, acostumado com a banalização da violência no Cinema e na TV, o sacrifício de Cristo deveria ser mostrado em toda a sua intensidade e de forma explícita. Em A Paixão de Cristo, a violência é usada como instrumento de militância e de combate a uma modernidade laica, hedonista e materialista, assim como fazem alguns grupos fundamentalistas religiosos. Mas será que Gibson consegue sensibilizar o público moderno com seu discurso religioso utilizando imagens da violência explícita do sacrifício de Cristo? Difícil afirmar. Vivemos em uma sociedade acostumada com a banalização da violência na mídia, onde a tragédia é espetacularizada. As vítimas transformam-se em objetos descartáveis de uma ação descontextualizada, substituídas velozmente por outras, e o cinema é em grande parte responsável por isto.


Jesus histórico X Jesus religioso


O cinema, assim como vários estudos e pesquisas, também não consegue responder satisfatoriamente quem é Cristo. Se Cristo é ou não o filho de Deus, é uma dúvida que só os céticos possuem. Apesar da tentativa de reinterpretação da figura de Jesus, em todos os filmes analisados, mesmo aqueles que tentaram fugir da visão tradicional de Cristo, de certa forma a sua essência religiosa permanece. Não importa como é mostrado. Parece ser impossível fugir da aura mística e divina que lhe envolve.


O mito cristão pode receber no decorrer da história, dependendo da situação cultural, política, social e econômica, vários significados, mas sem perder a força do seu sentido primeiro (teológico). No Cinema, Cristo poderá aparecer como um hippie, um ator de cinema, um revolucionário marxista, mas a sua significação religiosa sempre estará presente, com menor ou maior intensidade.


Veja a relação das várias versões de Cristo no Cinema.


Laércio Torres é jornalista, professor, pesquisador da cultura pop e responsável pelo site Mundo Cult & Pop. Autor do livro O Mito Cristão no Cinema (Salvador: Edufba, 2010).



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