• Laércio Torres

Cidadão Kane completa 80 anos: o maior filme de todos os tempos

Atualizado: Ago 7

Neste mês de junho, Cidadão Kane, dirigido por Orson Welles, completa 80 anos. Em 16 de junho de 1941, o filme estreava no Palace Theatre, em Nova York. Apesar da tola discussão de que perdeu o posto de melhor filme de todos os tempos, pois tinha uma pontuação de 100% no Rotten Tomatoes e descobriram uma crítica negativa do jornal Chicago Tribune, equiparando-se no site com a avaliação de 99% com As Aventuras de Paddington 2, ainda continua sendo o maior.



Para a geração da era digital, dos filmes de ação, super-heróis e efeitos especiais, compreender como uma produção antiga, em preto e branco, que conta a história de um magnata da imprensa americano, pode ser considerado o maior de todos os tempos deve ser um grande enigma e mistério. Porém antes de tudo, devemos compreender que no cinema, como em qualquer arte, a obra artística é fruto do seu tempo e deve ser avaliada a partir de suas influências, rupturas, evoluções e transformações que ocasionaram.


Cidadão Kane foi o primeiro filme de Orson Welles, que com apenas 25 anos dirigiu, co-roteirizou, protagonizou e produziu o longa inspirado na vida de William Randolph Hearst, proprietário de vários jornais nos Estados Unidos. Welles alcançou reconhecimento de Hollywood após a transmissão radiofônica em 1938 de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, que causou comoção nos Estados Unidos quando muitos ouvintes pensaram que se tratava de uma retransmissão verdadeira de uma invasão alienígena, e o sucesso no teatro com a companhia Mercury Theatre. Ele assinou um contrato com a RKO Pictures, o qual lhe deu liberdade para desenvolver sua própria história e usar seu próprio elenco e equipe, algo extremamente raro para um novo diretor.



Como retratado no filme Mank (2020), produção da Netflix e dirigido por David Fincher, o responsável por grande parte do engenhoso e original roteiro de Cidadão Kane foi Herman J. Mankiewicz, que baseou a história na vida do empresário da comunicação Hearst, o qual conhecia. Indicado para nove Oscars, o único que Cidadão Kane ganhou foi exatamente o de Melhor Roteiro. Poderoso e influente, o magnata da imprensa, contrariado em ser a inspiração para o filme, perseguiu Welles com acusação de comunista e boicotou o lançamento e divulgação do longa.


Narrado principalmente através de flashbacks, com movimentos e enquadramentos de câmera criativos e expressiva fotografia em claro e escuro, o longa conta a história de Charles Foster Kane, um personagem interpretado pelo próprio Welles, através de um jornalista que investiga o significado da última palavra que o magnata disse antes de morrer: "Rosebud". Kane é um menino pobre que acaba se tornando um dos homens mais ricos e poderosos dos Estados Unidos. Aparentava possuir tudo, mas algo lhe faltava.



O grande valor artístico de Cidadão Kane, que permanece no decorrer do tempo, está no talento de Orson Welles em aprender e aplicar de forma criativa e original os elementos da linguagem cinematográfica desenvolvidos até então. Inspirado em Shakespeare e no cinema de John Ford (assistiu cerca de 40 vezes em um mês “No Tempo das Diligências”, do cineasta) transformou a arte de filmar. Rompeu com o cinema clássico e inaugurou o cinema moderno, segundo os críticos, principalmente, os franceses da revista “Cahiers du Cinema”, que mais tarde criariam o movimento da Nouvelle Vague.



Deixando de lado a narrativa clássica de planos e contraplanos, enquadramentos em close-up ou planos médios, juntamente com o seu diretor de fotografia Gregg Toland, Welles popularizou e aperfeiçoou a técnica de “profundidade de campo”, que mantém o foco simultâneo de todos os elementos em cena, estejam eles no primeiro plano, centro ou segundo plano. Com a possibilidade do espectador escolher em qual elemento deseja focar, além de forma metafórica poder sugerir tensões, intenções e sentimentos dos personagens em cena. O maior exemplo disso pode ser visto na cena que ocorre dentro da casa da família Kane, quando Charles criança aparece na janela em segundo plano brincando na neve, enquanto seus pais tratam com o tutor sobre o futuro do filho.


Então quais são as características que tornam Cidadão Kane ainda um filme envolvente, importante e imprescindível para os amantes do cinema? Os vários estudos desta obra destacam:


1. O roteiro original de Mankiewicz e Orson Welles, que propôs uma ousada estrutura dramática, em que a história do personagem principal é contada a partir de pontos de vista diferentes e mudanças no tempo (presente e passado). Aqui vale destacar a participação de Robert Wise (diretor de A Noviça Rebelde e Amor, Sublime Amor) na montagem da película;


2. A indefinição do gênero cinematográfico, pois inicia em um clima de filme noir ou de terror com a morte de Kane em seu castelo gótico Xanadu, em sequência parece um cinejornal ou documentário sobre a vida pública do magnata; há um flashback da infância de Kane e depois uma comédia de costumes quando assume o controle do jornal New York Inquirer. Temos um momento de um drama político quando candidata-se a governador e é derrotado após a descoberta de seu adultério e ao final um melodrama. Toda a narrativa tem como fio condutor (filme noir) a investigação do jornalista que deseja descobrir o significado da palavra “Rosebud”;


3. Vemos em Cidadão Kane o uso revolucionário dos elementos da linguagem cinematográfica. A partir da técnica de produção do cinema clássico, Welles pôs em prática a utilização de forma inovadora dos enquadramentos de câmera, das luzes, dos cenários e da montagem.

4. Por fim, Cidadão Kane é o resultado da ousadia e coragem que geralmente só os jovens possuem. Welles aproveitou, com seus 25 anos, a oportunidade e liberdade de criar oferecida pela RKO Pictures para, através de seu talento e genialidade, realizar uma obra original e revolucionária, que transformou a forma de fazer cinema até então. Como certa vez declarou numa entrevista: “meu objetivo era fazer um filme cuja narrativa não se concentrasse tanto na ação, mas sim no estudo de personagem... ao longo do tempo, muitos filmes e romances se sustentaram rigorosamente na fórmula da ‘história de sucesso’. Eu queria fazer algo diferente. Eu queria fazer um filme que pudesse ser chamado de uma ‘história de fracasso’”.


Jamais Orson Welles teve a mesma liberdade de exercer o seu gênio criativo após o fracasso comercial de Cidadão Kane, em parte motivado pelo bloqueio da imprensa promovido por W. R. Hearst. Perdeu a confiança e a compreensão de Hollywood. Mas mesmo assim ainda realizou vários filmes, entre eles alguns aclamados pela crítica, como Soberba (The Magnificent Ambersons, 1942) e A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958). Cedo conheceu o sucesso e o fracasso. De certa maneira sua vida artística se assemelhou com a de Charles Foster Kane. Ao final do filme, o jornalista investigativo se vê incapaz de descobrir o significado da palavra “Rosebud” para o magnata da imprensa e concluiu: "foi um homem que possuiu tudo o que quis, e depois perdeu tudo. Talvez Rosebud seja algo que ele nunca tenha possuído, ou algo que tenha perdido. Mas não explicaria tudo. Nenhuma palavra pode explicar a vida de um homem". Talvez a mesma afirmação pudesse se referir à genialidade de Orson Welles.



FICHA TÉCNICA


Gênero: Drama

Língua Original: Inglês

Diretor: Orson Welles

Produtor: Orson Welles

Roteiro: Herman J. Mankiewicz, Orson Welles, John Houseman

Elenco: Orson Welles (Charles Foster Kane), Joseph Cotten (Jedediah Leland), Ruth Warrick (Emily Norton Kane), Everett Sloane (Bernstein), Agnes Moorehead (Mary Kane), Dorothy Comingore (Susan Alexander).

Data de lançamento (cinemas): 1º de maio de 1941

Bilheteria (EUA bruto): $ 977,3K

Duração: 1h 59m

Produção: Mercury Productions, RKO Radio Pictures Inc.


Laércio Torres é jornalista, professor, pesquisador da cultura pop e responsável pelo site Mundo Cult & Pop. Autor do livro O Mito Cristão no Cinema (Salvador: Edufba, 2010).

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